Cidadão Kane

citizenkaneCitizen Kane – 1941

Direção: Orson Welles

Roteiro: Orson Welles, Herman J. Mankiewicz

Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, George Coulouris, Everett Sloane, Ruth Warrick, George Coulouris, William Alland

“Cidadão Kane” é uma obra prima do cinema, nenhum filme foi tão genial e ousou tanto como ele. O grande trabalho em “Cidadão Kane” se deu pela junção de três grandíssimos profissionais, o diretor de fotografia Gregg Toland, o cenógrafo Perry Fergunson e o diretor, ator, escritor, toureiro, mágico, estressado, cômico, odiado, idolatrado, maluco… Orson Welles. Com apenas 26 anos, o estreante Welles assinou um contrato com a produtora RKO em Hollywood, recebendo privilégios que nenhum outro profissional jamais havia sonhado. Welles teria total liberdade de criação e ação para seus filmes, podendo atuar e dirigir o que lhe desse na cabeça.

O roteiro, que no início se chamava American, foi concebido inicialmente por Herman Mankiewicz, um grande escritor, que depois que caiu na bebedeira não produziu mais nada de bom. A disputa pela paternidade de “Cidadão Kane” gerou grandes discussões mesmo depois de muitos anos do filme ter sido lançado. No contrato de Mankiewicz, em uma clausula ele abria mão de todos os direitos de autor sobre o filme para a produtora, fato comum na rádio e nas transmissões de Welles. O que daria total crédito a Welles acabou dando uma bela dor de cabeça, pois o sindicato de roteiristas comprou a briga de Mankiewicz, já que para eles mesmo com a tal cláusula, o roteirista tem direito a ser reconhecido como autor. Para evitar mais confusão e propaganda negativa, Welles decide incluir o nome de Mankiewicz e fazendo média com a moçada, coloca o nome do cara com principal escritor.

O roteiro original de American dificilmente seria aprovado, já que fazia claras e evidentes referências a William Hearst, magnata das comunicações da época, uma espécie de Roberto Marinho americano. Mesmo com todas as alterações feitas e após sete revisões o roteiro ainda continha algumas boas referências a Hearst, que através de seus jornais tentou boicotar o filme, mas acabou com isso só ajudando na divulgação. Hearst tentou ainda comprar os direitos do filme e vetar o seu lançamento, mas nem isso e nem a sua influência em Hollywood tiveram efeito, já que o filme foi lançado em 1941 e recebeu uma boa resposta de crítica, mas nem tanto do público. O sucesso de “Cidadão Kane” foi aumentando com o passar dos anos e seu status de “melhor filme já realizado” veio depois da década de 70, depois de um ostracismo pós-guerra.

Concorrendo ao Oscar, “Cidadão Kane”, recebeu nove indicações, mas como a popularidade de Orson Welles era baixíssima em Hollywood, o filme levou apenas um, o de Melhor Roteiro, o que para Welles era uma humilhação já que teria que dividir o prêmio com Mankiewicz.

As inovações implantadas no filme tem a mão de Gregg Toland, um inconformista assim como Welles, que não tinha medo de provar novas coisas e andar por caminhos não explorados. Desde o utilizo da câmera, ao sistema de iluminação e enquadraturas, Toland abriu os olhos de Welles para um novo mundo, fugindo completamente do que era realizado na época e que seria muito copiado anos depois. A escolha de filmar os personagens com enquadraturas extremamente baixas era uma caracteristica do diretor John Ford, um ícone para Welles e com quem Toland já havia trabalhado. Ao lado do cenógrafo Perry Fergunson, Toland e Welles criaram ambientes grandiosos, como a mansão de Kane, Xanadu, inspirada em construções do renascimento italiano e na mansão de Hearst em San Simeon.

A história relata mais de 70 anos na vida de Charles Foster Kane (Orson Welles), um garoto pobre, que após a mãe ficar rica com uma mina, foi deixado aos cuidados de Walter Thatcher (George Coulouris), um banqueiro, que controlava futura fortuna do garoto. O filme começa do final, quando Kane já velho está no leito de morte e profere a sua última palavra, Rosebud. O jornalista Jerry Thompson (William Alland), é incumbido de descobrir quem ou que coisa significa Rosebud, já que segundo ele, as últimas palavras de um homem podem resumir a sua vida. Partindo em busca de respostas, Thompson entrevista uma série de pessoas ligadas a vida de Kane, algumas que o respeitam e outras que o odeiam. O ponto de partida são as memória de Thatcher, que são conservadas com todo cuidado em um memorial ao banqueiro.

Os primeiros anos de Kane são contados de forma muito rápida, com o primeiro contado de Thatcher com o garoto e depois temos um salto para a volta de Kane aos Estados Unidos para começar a sua vida adulta. Já demonstrando um forte carater, Kane abre mão da maior parte de seus bens para tomar conta exclusivamente de um pequeno jornal, o New York Inquirer. Com um estilo forte e sem medo de atacar seus rivais, o jovem Kane denuncia uma série de irregularidades em uma empresa do qual ele mesmo é um dos maiores acionistas.

Em outras conversas Thompson entra em contato com a vida privada de Kane, o fracasso do primeiro casamento com a sobrinha do presidente, sua entrada e derrota na política e seu romance, que geraria um segundo casamento com a cantora lírica Susan Alexander (Dorothy Comingore). Uma das principais fontes é Jedediah Leland (Joseph Cotten) amigo de Kane na época da universidade e que o acompanhou em boa parte de sua história. É de Leland um dos relatos mais profundos sobre Kane, que mesmo depois de anos brigados ainda guarda uma mágoa do amigo, mas mesmo assim um grande respeito.

Todas as fontes dão uma versão diferente de Kane, que uma hora é apenas um homem maluco, em outra um genial visionário e em outras um egoísta que não tem respeito pelos outros. A vida de Kane foi repleta de altos e baixos, com conquistas e derrotas grandiosas, mas sendo sempre um homem solitário.

Começar a carreira com um filme assim teve um efeito negativo na vida de Welles, que mesmo depois tendo realizado outros bons filmes, não conseguiu que nenhum chegasse aos pés de sua obra prima. Com mais de 60 anos de seu lançamento, “Cidadão Kane” figura sempre entre os melhores filmes, sendo ainda hoje uma forte influência de como se fazer um bom filme.

Links

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: